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ENCANTADO 1 X 0 NOVA YORK

Aconteceu na noite de ontem, na ponte aérea Arroio do Meio-Encantado, no horário das 18h, no ônibus da empresa Arroio do Meio. O relato comprova a nossa tese de que algumas coisas que surgem no Vale do Taquari, jamais irão acontecer em Nova York, a capital do mundo ocidental.

Um casal, na faixa dos 65 anos, entra no ônibus. Ele com perfume de cana de açúcar destilada, ou seja, aromas de cachaça. Eles sentam e ela questiona sobre o valor de R$ 400.  Ele diz que perdeu. E assim começa uma onda a xingamentos, gritos e socos no companheiro. Os passageiros observam tudo de forma surpresa. Ela argumenta que são 20 anos aturando o marido e que eles vivem assim.

O motorista é alertado. Ele para o ônibus e educadamente pede calma e controle ao casal.

Eles  silenciam e após a partida voltam a discutir. O motorista é acionado novamente e  educado separa os dois.  Coloca  eles em extremos distantes dos das poltronas. Depois do ônibus em movimento a esposa se aproxima e eles brigam de novo.

No pedágio, o motorista pede novamente  calma e ameaça botar os dois pra fora do coletivo. O homem, numa mistura de heroísmo e desabafo, lasca:  “Botega, pode tocar… Até Encantado eu agüento…!!!!”

Risos gerais entre os passageiros.

No caminho, nova briga. E assim a história termina no Posto da Polícia Rodoviária, onde o motorista parou e pediu para que o casal fosse atendido pela equipe de plantão.

Coisas deste tipo, brigas de amor neste formato, nunca irão acontecer em Nova York. Fatos assim, só no Vale do Taquari!!!!

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O SILÊNCIO DE ROBERTO BREUNER

É meio dia e dez. Ouço a notícia da morte do narrador Roberto Breuner. E me emocionei.

Lembrei do Milton Fernando que certa vez me convidou, num final de ano, para participar da integração dos funcionários da Rádio Encantado.

Ele me disse que lá estaria o narrador Roberto Breuner. Eu não fui e o Milton sempre elegante não entendeu a minha deselegância.

É que eu sou fã de rádio e  fã de Roberto Breuner. Eu iria sentar na frente ou ao lado e faria dezenas de perguntas sobre rádio, profissionais e coberturas. Seria um chato, aí evitei.

O rádio é som e hábito. Dia destes fui num almoço num sítio de um amigo. O local era um prédio, de três andares, de lazer privativo, no alto de uma montanha. Geografia, decoração, conforto e tecnologia de ponta em tudo.

No quarto do casal, na cabeceira da cama, um radinho de pilha. E nesta descrição sintetizo as amarras que o rádio faz. O rádio é humano e eterno.

Breuner para mim foi definitivo quando o time Corinthians, de Santa Cruz do Sul, dominava o basquete nacional.

Rádio é som e estilo. O seu bordão “Prepare o seu coração para as coisas que eu vou contar” era real. Ele era o elo da torcida com a quadra. Entendo que Santa Cruz do Sul lhe deve uma rua ou uma praça com seu nome.

Rádio é som e profissionais. Emissoras são importantes,  mas é a voz e o estilo do profissional que amarra o ouvinte.

Certa vez um ladrão quis assaltar Cândido Norberto. E ele disse: “Calma rapaz!”. O ladrão reconheceu a voz de Cândido, que havia, no programa de rádio, ajudado sua mãe. O assalto deixou de acontecer.

Na Copa da Itália, na madrugada, João Carlos Belmonte, na Rádio Gaúcha, colocava no ar os ouvintes do Brasil e da Itália. Em dado momento entra no ar, de Pelotas, um casal, dizendo que Belmonte era “os nossos olhos no mundo”. O casal era deficiente visual. São as marcas do vínculo entre ouvintes e radialistas.

Rádio é som e Roberto Breuner. Sua vibração e habilidade narrativa fizeram o basquete de Santa Cruz ter fãs em todo o Brasil.

Rádio é som e emoção e Roberto Breuner honrou sua profissão, foi exemplo para colegas e fez fãs como eu.

Meus ouvidos e coração  seguem em busca de histórias e emoções. Que o silêncio de Roberto Breuner sirva de reflexão para o rádio atual.

 

 

Por Adriano Mazzarino

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JANTEI COM O PREFEITO SCHMIDT

Artigo

Eleições 2016/ Lajeado

IMG_0162Jantei com o prefeito Luis Fernando Schmidt. Foi na sexta-feira (1°/07). Uma casualidade, um encontro  na casa do empresário Léo Katz, nos colocou lado a lado. E junto estava o presidente do Legislativo  Heitor Hoppe.

Não falava com o prefeito, neste formato, desde os primeiros meses depois da posse.

Ele estava calmo, como sempre esteve. Não abriu muito o jogo do momento e do futuro. A conversa poderia ter se ampliado, mas a sempre atenta secretária do Planejamento, Marta Peixoto, passou para dar um “oi!” no prefeito.  De longe, em três amplas salas conjugadas, abertas  e  cheia de gente ela conseguiu ver o prefeito, sentado, conversando num pequeno grupo.  Uma percepção ótica digna de filmes do serviço secreto.  No rápido “Oi…!” , seguido de um curto abraço afetivo, ela o alertou-o sobre o “perigo” que estava correndo naquela quase roda. Eu entendi o comentário como uma gentileza irônica da secretária, mas os códigos petistas podem ser outros.

Na conversa de 40/60 minutos o prefeito Schmidt  comentou que as votações dos vereadores Sérgio Kniphoff e Eloede Gonzatti deverão ser as de maior expressão.

Perguntei qual a marca de seu governo. Ele pensou alguns segundos e disse que era a  integração do governo nas ações da cidade.  Esboçou que poderia ser  habitação, mas preferiu voltar no conceito de integração. Até gesticulou com as mãos desenhando/mostrando a centralidade e o fez em direção a si, ou seja, ele coordena a máquina. Talvez numa segunda leitura,  algo assim: “o governo sou eu”.  Uma  Lajeado de muitas ações, com as mãos em direção a ele. Talvez, numa terceira leitura: do mundo para si. Como ele foi cuidadoso com as palavras, tive de avançar para a leitura corporal sob o risco de estar equivocado.

Sinalizei a ele que haviam me dito que as obras nas periferias são amplas. Ele foi discreto e não avançou, lembrou que as áreas centrais também têm ações.

Atento, ele veio com a resposta do questionamento anterior, sobre a marca. De forma sutil comentou o projeto de modernização do Parque do Imigrante conduzido pela Acil. Mas cuidadoso lembrou que tal obra é algo para a execução em 15/20 anos.

Sobre o contexto eleitoral mostrou-se atento ao PP. Disse que a força partidária em eleições é importante e nem sempre as pessoas tem esta percepção. Hoppe, ouvindo, acrescentou ao  comentário sobre a presença de Gláucia Schumacher como novidade e incógnita. Ela será vice, numa dupla comandada por Marcelo Caumo (PP). Schmidt citou a presença de Glauco Schumacher como candidato a vereador. Concluiu que isto pode ser um preparo do filho do ex-prefeito Cláudio Schumacher, para projetos eleitorais em eleições futuras.

Estas foram as minhas impressões da conversa regada a vinho tinto e feijoada. Nas falas de Schmidt há recados e iscas e eu estou me fazendo de instrumento. Sei que ele foi cirúrgico e estratégico, foi até onde lhe interessava. Não tenho ilusões.

Em paralelo, circulei no jantar de muitos convidados. Pouco, mas circulei. O prefeito saiu às 23h. Eu avancei por mais uma hora e meia. E ali ouvi alguns. E estes querendo saber detalhes da conversa. E nas perguntas formuladas  entendo que Schmidt deva refazer ou reavaliar o seu conceito de centralidade ou integração. Como o prefeito foi cirúrgico e estratégico assim também serei.

Schmidt, por sua tradição de parlamento se comunica bem na tribuna e microfones. Mas em comunicação política o verbal é apenas uma parte do todo.

Todas estas linhas foram aquecidas por duas taças de vinho, portanto corre-se o risco de distorções de análises. Porém, talvez integre a ampla maioria da cidade que Schmidt governa.

Lajeado de muitas potencialidades é rica em análises equivocadas sobre o sentimento coletivo da política local. Mas isto é papo para uma  nova conversa e mais uma taça de vinho.

 

(Adriano Mazzarino/Opinião)

Foto: Juremir Versetti/Chinelagem  Press

 

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GOVERNO SCHMIDT: PASSADO, PRESENTE E FUTURO!

Estou em 2013. É dia da posse. É primeiro de janeiro. É posse de Luis Fernando Schmidt  (PT) na prefeitura  de Lajeado. O auditório do prédio 11, da Univates, está lotado. O calor de verão é intenso e o ar condicionado não dá conta.

O clima de vitória e vaidade é grande. As gravatas coloridas assim demonstram. Os sorrisos do inconsciente se  materializam, mesmo que os discursos tentem disfarçar. O petista Schmidt, após três tentativas, chegou ao poder.

Enquanto o cerimonial não inicia a posse,  os abraços são intensos.  O deputado federal Enio Bacci (PDT), o político que disse que “a campanha se ganha no atar” puxando para si a paternidade do DNA da vitória,  chega. Fica  em pé, em conversa com o radialista Renato Worm, entre o espaço do público e palco.

Na platéia uma diversidade de tipos da política local: eleitores, cabos eleitorais, lideranças, familiares e assessores. É o poder sob uma nova plástica na cidade pólo do Vale do Taquari.

O pronunciamento de Schmidt é interessante. Parlamentar hábil no verbo,  de muito tempo de tribuna, se diverte promovendo a oratória como sinalizador de um novo tempo. No conteúdo superficial desenhou diálogo com o partido do vice, com o Legislativo, com o Judiciário e Ministério Público. Nominou as autoridades presentes e futuras como fio de costura nos diálogos  e ações visionária  de uma Lajeado  participativa.  Na platéia uma bandeira tímida do PT colore, e às vezes tremula, no auditório.

Estou em 2015. É dezembro. O PMDB informa que rompe com o PT, no governo de Lajeado. Entre a posse e este dezembro muitos canetaços e discursos aconteceram. O mundo desenhado por Schmidt na posse não é o que se vê na prática da governança local.

Schmidt vai para uma reeleição, em 2016, chamuscado. Schmidt não dialoga com a cidade.  Alguns dizem que ele está escondido. Nas entrevistas faz palestras e diplomacia. Na vida real os discursos não acontecem. O lajeadense da gema, o não partidário, sentiu a distância entre discurso e prática.

Uma crise nos primeiros três meses de governo ele ainda não explicou. As quebras de contrato e novos editais no setor de limpeza urbana seguem sendo uma interrogação.

Schmidt nunca reuniu os partidos que o apoiam. Reuniões de secretariado nunca foram fotografadas ou expostas. O PT não se sente a vontade com o estilo de governança adotado, onde  um secretário de qualificação questionável, faz  a cara e cotidiano da administração. E com tal perfil,  blinda Schmidt  de coisas “pequenas” do ato de governar.

Na esfera estadual Schmidt é um personagem isolado do PT gaúcho. Seu passado é um passaporte de serviços prestados. No presente os fatos não correspondem. Seu governo recebeu poucas visitas das lideranças estaduais e federais. O alinhamento das estrelas, uma promessa de campanha, não se fez na prática. O PT Regional do Vale do Taquari silencia, mas esperava mais da sua principal liderança.

As obras marcantes do governo parecem ser o recapeamento do centro e as obras de  moradia popular do governo federal na periferia. Mas a diversidade da cidade não sentiu o pulsar do governo.  Crises relacionadas ao estacionamento rotativo do centro seguem na gangorra de conflitos internos, no Ministério Público e no Poder Judiciário.  A simples decoração de Natal, dos dezembros,  do Lajeado Brilha, pouco refletem do pulsar da cidade pólo do Vale.

No emaranhado de conflitos, no núcleo do PT de Lajeado, a crise é mais profunda. A bancada do PT no legislativo, perdeu um vereador, Ilvo Salvi  que foi para a Rede. Salvi é da velha guarda. Do tempo que ser petista era algo não decifrável na cultura política brasileira.  Em paralelo, secretários, em reuniões partidárias internas,  tiveram crises de choros e pedidos de desligamento. O estilo centralizador machuca  o perfil de algumas lideranças que integram o governo.

Schmidt sorri, mas é teimoso. Schmidt sorri, mas não decide. Schmidt sorri, mas não dialoga, apenas discursa.

O que ficou entre  o dia da posse e o hoje é o sorriso e a vocação de tribuno. E talvez, o mutirão de limpeza, do inicio do governo e hoje engavetado. O projeto foi abandonado e consistia em fazer o funcionalismo e os aliados, nos finais de semana, promovendo mutirões de limpeza nas margens das rodovias.  O fato virou piada.

Schmidt não fez marca de governo. E o que fez não o coloca como símbolo de representatividade política do seu universo eleitoral. Para tal, terá de fazer uma forte mudança nos próximos dez meses. E isto não é no governo ou na equipe, mas nele.

Schmidt bateu três vezes na porta das casas dos lajeadenses.  Só na quarta vez  é que o eleitor de Lajeado decidiu abençoá-lo como prefeito. Foi um diálogo difícil de construir e chega neste dezembro de 2015 com sinais claros de conflito.

Não censurem o PMDB de Lajeado pela decisão de sair do governo. Talvez, seja o alerta que o governo Schmidt precise para cruzar 2016 e voltar a ser feliz nas urnas.  Mas isto é conversa para outro dia. (Adriano Mazzarino)

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CIRCO, ORLANDO ORFEI E PATERNIDADE

orfeiNa distante infância Orlando Orfei me apareceu. Pela mão de meu pai, em Curitiba, ele chegou e de mim nunca mais saiu. Por onde foi sempre procurei acompanhá-lo.

É que ver um homem no picadeiro brincar com leões e fazer as águas dançarem com a música era, para aquela criança, era   ter superpoderes.  E talvez dali venha a minha simpatia de ter super-heróis de carne e osso, mesmo tendo lido muitas histórias em quadrinhos.

Dali  em diante sempre procurei acompanhar sua trajetória. Orfei era um homem de muitos mundos o que valorizou profundamente a história do universo do circo.  Em 95 anos de história viu e sentiu duas guerras, acompanhou a construção do Brasil moderno, fez circo no Brasil e nas Américas, empresariou  recreação no Rio de Janeiro como proprietário de parque de diversão fortalecendo sua essência de artista, intelectual e empresário.

Numa de suas andanças parou em Porto Alegre. E lá fui eu com olhar de repórter entrevistá-lo.  Mas foi impossível não vê-lo como um mito. Era um homem no outono da vida em processo de reflexões.

Relatou passagens pelo interior da Amazônia; sua relação com os leões; suas visitas ao Vaticano; a perda do espaço do Parque Tivoli, no Rio de Janeiro e os amores do passado.

Fez os relatos de forma abrangente com pitadas de ironia. Mas em algumas vezes, os olhos viajaram para o submerso da alma. O mundo que ele viu e sentiu e naquele instante repassava estava acordado dentro dele, pulsava nos olhos.

Naquela mesma semana decidi ir vê-lo numa matinê de domingo.  E lá estava ele, comandando um exército de profissionais sob o mantra da emoção, fazendo o circo como um sacerdócio.

No final do espetáculo fiquei a observá-lo de longe. Após os aplausos, ficou circulando entre público, recebendo abraços, sorrisos, posando para fotos. Estava lá ele entrando na infância de futuros adultos. Estava se energizando da emoção que despertou no público.

E naquela cena entendi uma passagem das minhas viagens internas e pessoais.

Toda vez que vi algum circo nas estradas da vida, numa das minhas mãos, quem me segurava era Orlando Orfei. Na outra, Talis, meu velho pai!

Agradecer os dois, nesta semana de Dia dos Pais, é não perder a essência da criança que fui e o adulto que me tornei. Posso assim dizer que fui  abençoado. Obrigado Pai, Obrigado Orlando Orfei! Obrigado pela permanente e eterna companhia! (A.Mazzarino)

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